abril 14, 2010

A grande mídia e a campanha eleitoral

A campanha eleitoral ainda nem começou de verdade. Isso é o menos importante agora. Nestas duas semanas de "candidatos livres e declarados", já foi possível ver como será a disputa eleitoral entre Dilma e Serra. Mais. Já foi possível ver como será a cobertura da grande imprensa para essa disputa.
Nos últimos dias seguiram-se na grande mídia, como que num desfile, várias e várias reportagens claramente favoráveis ao candidato tucano, ao mesmo tempo em que notícias pró-Dilma simplesmente sumiram dos jornais. No lugar disso, destaca-se qualquer erro gramatical, qualquer deslize cometido pela petista em entrevistas e eventos dos quais ela tem participado, ao mesmo tempo em que notícias relacionadas às falhas em obras do tucano como as que ocorreram no Rodoanel e na Nova Marginal curiosamente também sumiram do noticiário. Ou seja, 2 x 0 para os tucanos.
Agradecendo a preferência , os tucanos têm usado a grande imprensa como base de campanha, recorrendo as notícias pró divulgadas por ela para comprovar suas benfeitorias e valendo-se da ausência de notícias contra para desqualificar as benfeitorias dos adversários.
Duas provas dessa aliança "demotucanomidiática" foram dadas nesta segunda feira, 12/04. Pela manhâ, dados da Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo (SSP) foram divulgados e apontaram um aumento de 12% no número de homicídios no estado. Dados anteriores já haviam apontado aumento nos índices gerais de criminalidade. Apesar dos dados terem sido divulgados a partir de números oficiais, o atual governador Alberto Goldman apressou-se em dizer que os dados eram irreais e não-oficiais, tendo sua fala ratificada pelo ex Serra. Curiosamente, a imprensa paulista deu mais destaque às negativas da dupla sobre a notícia do que à própria notícia. Ou seja, sabe-se que estão negando, mas não se sabe com certeza o que estão negando.
Como era esperado, na tarde do mesmo dia foi divulgada uma pesquisa de intenção de voto realizada pelo Instituto CNT/Sensus que apontou um empate entre os candidatos Dilma e Serra. Novamente, as negativas e tentativas de desqualificação da pesquisa se espalharam pelo noticiário antes mesmo da própria pesquisa ter repercussão. Grandes portais sequer colocaram os dados da pesquisa e curiosamente, os que o fizeram, desta vez tiveram o cuidado de divulgar números com precisão decimal, numa clara idéia de que apesar do empate o candidato tucano continua na frente (32,7 para Serra e 32,4 para Dilma).
Ditando o tom da campanha, a desqualificação tornou-se discursso padrão dos tucanos. Questionado sobre os acidentes ocorridos no Rodoanel devido à falhas ma execução da via, o ex-governador Serra simplesmente disse que precisavam ser investigados. Enquanto a Polícia Rodoviária Federal e o DERSA apontavam as diversas falhas existentes ao longo dos 61 km de pistas, a única notícia que se pôde ver nos grandes impressos e portais tratava da redução de 21% (apenas) no trânsito de uma avenida da cidade. Quase que em paralelo, os vários acidentes ocorridos na Nova Marginal devido à falta de sinalização e iluminação pública tiveram destaque mínimo, sendo ofuscados pelo grandioso aumento na média de velocidade nas marginais (de 16 km/h para 23 km/h).
Que não se comente da greve de professores do estado de São Paulo, a qual Serra classificou como mera agitação política, pelo simples fato da líder ter declarado voto para a candidata petista. Ora, somente uma pessoa muito inocente esperaria o contrário.
O "Gran-finalle" do movimento "demotucanomidiático" ocorreu esta semana, e como não podia ser diferente, foi dado pela revista Veja. Na sua capa, uma imagem do Cristo Redentor chorando ilustrava a manchete da semana; nas páginas que se seguiram, uma matéria usando o sofrimento de milhares de famílias como forma de denegrir e desestruturar o governo do Rio de Janeiro, aliado declarado do governo federal. Classificou-o de omisso, burocrático e afirmou que culpar a forte chuva seria demagogia pura. Voltando à edição de duas semanas atrás, a mesma Veja trazia como matéria de capa uma reportagem que destacava as fortes chuvas NA REGIÂO SUDESTE e absolvia o governo de São Paulo (opositor do governo federal) de qualquer culpa pelos mortos e desabrigados em decorrência de enchentes e desmoronamentos. Se recorrermos a qualquer livro de geografia que não seja aquele distribuído nas escolas estaduais de SP, veremos que o Rio de Janeiro também está na região sudeste e também sofreu das mesmas fortes chuvas que São Paulo, ou seja, ou houve omissão e demagogia em ambos ou em nenhum.
Ao que parece, a demagogia maior é a que tem sido praticada há anos e anos pelos mesmos que agora classificam um e outro de demagogo. E até onde se sabe, não há omissão maior do que um meio de comunicação compromissado com a verdade e a ética divulgar somente os fatos que atendam aos seus interesses.

*Só para constar, este blog precisou recorrer ao Google na noite de ontem para encontrar portais que estivessem divulgando os números da pesquisa eleitoral divulgada pelo Sensus.

Um comentário:

thebruna disse...

A primeira coisa que eu pensei foi que eu não vi nenhuma noticia falando sobre os problemas do rodoanel ou sobre essa pesquisa, muito pelo contrário.
E o pior que são poucas pessoas que tem consciência desses fatos e acabam sendo as maiores enganadas.

beijo :*

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